Seus olhos se fecharam ao sentir a fumaça, o café realmente estava quente. Apesar da tentação de tomá-lo de uma vez, preferiu o café morno por ser muito mais saboroso. “Pleasure delayer”, sorriu ao lembrar-se de Vanilla Sky, um de seus filmes preferidos.
Era uma dessas manhãs nubladas, regada a suores negros e perspectivas obscuras. O futuro era uma incógnita, mas o presente lhe dava a certeza de que cada segundo valeria a pena.
O asfalto despedaçado e a estrada mal sinalizada lhe davam náuseas. Sempre teve enjôo ao ler enquanto dirigia, mesmo que fossem manchetes na capa da revista estampada na banca. Decidiu então que o certo seria abastecer, descansar um pouco, retomar o fôlego.
A viagem estava só começando e o sol ameaçava despontar, na promessa de um céu azul.
Un día me voy a ir
Y no volveré jamás
Prefiero la soledad
A vivir sin mi verdad.
Un día me voy a ir
Seguro me extrañarás
Como el ave de ciudad
Se va buscando la mar.
Porque al final
Aunque esté feliz aquí
Debo emigrar
A un lugar lejos de ti
No me entiendas mal
Que no es cosa de los dos
Parece el final, pero es mi principio.
Un día me voy a ir
y no volveré jamás.
Prefiero la soledad
A vivir sin mi verdad.
Porque al final
Aunque esté feliz aquí
Debo emigrar
A un lugar lejos de ti
No me entiendas mal
Que no es cosa de los dos
Parece el final, pero es mi principio
No me entiendas mal
que no es cosa de los dos
Parece el final, pero es mi principio.
Un día me voy a ir
Y no volveré jamás
Prefiero la soledad
A vivir sin mi verdad.
Sentei-me de costas para a janela. Sabia que os visitantes daquele velho piano bar precisariam fingir não olhar para mim. Alguns anos a mais de experiência podem causar estranheza e/ou inveja, dependendo do quanto a vida judiou do sujeito. Eu já me acostumei aos infelizes.
Reparei na jovem do outro lado do salão, passou a noite toda me observando. Após algumas taças, tomou coragem e veio tornar a vida de um velho como eu mais interessante.
- Boa noite. Mas que linda vista, não?
- Belíssima. Esta noite está especialmente iluminada.
- Então falo com um habitué! Há quanto tempo frequenta este bar?
- Há algumas décadas. O suficiente para que os seus pais se conhecessem, se apaixonassem e se separassem.
- Gosto da sua boina.
- Gosta? Uso esta boina desde que meu primeiro neto nasceu. Desde então, soube que poderia contar com alguma solidez na família. É como um teto sobre mim.
- Mas por que não adotou essa moda na geração anterior, quando seus filhos nasceram?
- Porque os filhos são tão fugazes quanto fios de cabelos. Eles vêm, reviram nossa vida e se vão. Não posso dizer que foram sinônimo de estabilidade.
- Mas estão aqui à sua volta, não estão?
- Ocasionalmente. E por obrigação. Filhos são um flashback diante de seus olhos. Servem para que que você sofra revendo os próprios erros. Não se pode, e no fundo nem se quer, mantê-los por perto. É melhor expiar seus pecados em estranhos.
- E os netos?
- Os netos chegam quando os filhos se arrependem e resolvem se estabilizar. É neste momento que a família consegue se reunir com alguma cumplicidade e hiprocrisia.
- Nunca havia pensado dessa forma.
- Questão de tempo, minha cara. As respostas estão todas dentro de nós.
Disse que tinha um compromisso inadiável e que tinha que sair imediatamente.
Enquanto ele olhava para as roupas jogadas pelo chão, pensava se haveria sequer a possibilidade de vê-las penduradas no armário novamente, ou se deveria simplesmente colocá-las de volta naquela velha mala.
Apesar da bagunça toda à sua volta, tudo parecia em ordem comparado ao que sentia. Milhares de expectativas e sonhos imprecisos se misturavam e se dissipavam na fumaça do cigarro.
Há alguns meses, as aulas de Espanhol na empresa em que eu trabalhava foram canceladas. Eu e minha querida amiga Su ficamos órfãs de uma das atividades mais deliciosas da semana.
Rolou um período de indefinição, não sabíamos se as aulas voltariam e… esperamos em vão. Além disso, eu que estava toda adepta da música latina, viciei na Feist, Nicole Atkins e KT Tunstall. Uma coisa levou à outra e eu acabei perdendo bastante contato com o idioma.
Mas como Julieta Venegas mudou minha vida (heh), morri de saudades e resolvi voltar ao estudo. 2 ou 3 dias de aula na hora do almoço e tiro o atraso rapidinho. E, quem sabe, um mês de férias estudando em Buenos Aires ou Barcelona. E tô louca pra conhecer o México.
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