Réveillon

Quinta-feira, 22/Janeiro/09 § Deixe um comentário

Banho longo, sal grosso, roupa branca. Uma boa dose de esperança e voilá! Começava a festa.

A TV ligada (quase) não deixava margem para olhares constrangidos. Aquelas pessoas estavam ali há horas e, embora compartilhassem um mesmo sobrenome, eram praticamente estranhos.

Estávamos em mais uma das reuniões familiares que,  por terem se tornado uma convenção anual de fofocas e maledicências, pouco mantinham o propósito original de harmonia. Ora via-se um tio alcoolizado erguer a taça em brinde, ora ouvia-se o estilhaçar de uma garrafa em meio a gritos e desaforos. Não se pode negar: tudo era colocado em pratos limpos, para o bem ou para o mal.

A menina observava tudo silenciosamente com os restos de ilusão. E o cachorro se escondia atrás do sofá com os restos de churrasco.

Filosofia barata

Segunda-feira, 3/Novembro/08 § 1 Comentário

E tudo começou com a promessa de calmaria. Mas não é preciso muito para convencê-la do contrário. Se a idéia era permanecer atenta a si, talvez o melhor fosse escapar da realidade para um lugar bastante distante. Consigo. Bem que tentou, mas seu corpo ainda estava presente.

Intensidade. Era essa a sensação que buscava e que finalmente conseguira. Não, não imaginara que a franqueza seria indolor, mas talvez tenha se esquecido que machucar os outros é uma faca de dois gumes.

Finalmente, viu sangue de barata. E não se parecia nada com o que corre em suas veias.

Céu azul

Quarta-feira, 29/Outubro/08 § 2 comentários

Seus olhos se fecharam ao sentir a fumaça, o café realmente estava quente. Apesar da tentação de tomá-lo de uma vez, preferiu o café morno por ser muito mais saboroso. “Pleasure delayer”, sorriu ao lembrar-se de Vanilla Sky, um de seus filmes preferidos.

Era uma dessas manhãs nubladas, regada a suores negros e perspectivas obscuras. O futuro era uma incógnita, mas o presente lhe dava a certeza de que cada segundo valeria a pena.

O asfalto despedaçado e a estrada mal sinalizada lhe davam náuseas. Sempre teve enjôo ao ler enquanto dirigia, mesmo que fossem manchetes na capa da revista estampada na banca. Decidiu então que o certo seria abastecer, descansar um pouco, retomar o fôlego.

A viagem estava só começando e o sol ameaçava despontar, na promessa de um céu azul.

Próxima parada

Segunda-feira, 13/Outubro/08 § 2 comentários

Cansei de ter destinos. Quero apenas chegar a lugar nenhum em tempo recorde.

Piano bar

Segunda-feira, 6/Outubro/08 § 3 comentários

Sentei-me de costas para a janela. Sabia que os visitantes daquele velho piano bar precisariam fingir não olhar para mim. Alguns anos a mais de experiência podem causar estranheza e/ou inveja, dependendo do quanto a vida judiou do sujeito. Eu já me acostumei aos infelizes.

Reparei na jovem do outro lado do salão, passou a noite toda me observando. Após algumas taças, tomou coragem e veio tornar a vida de um velho como eu mais interessante.

– Boa noite. Mas que linda vista, não?
– Belíssima. Esta noite está especialmente iluminada.

– Então falo com um habitué! Há quanto tempo frequenta este bar?
– Há algumas décadas. O suficiente para que os seus pais se conhecessem, se apaixonassem e se separassem.

– Gosto da sua boina.
– Gosta? Uso esta boina desde que meu primeiro neto nasceu. Desde então, soube que poderia contar com alguma solidez na família. É como um teto sobre mim.

– Mas por que não adotou essa moda na geração anterior, quando seus filhos nasceram?
– Porque os filhos são tão fugazes quanto fios de cabelos. Eles vêm, reviram nossa vida e se vão. Não posso dizer que foram sinônimo de estabilidade.

– Mas estão aqui à sua volta, não estão?
– Ocasionalmente. E por obrigação. Filhos são um flashback diante de seus olhos. Servem para que que você sofra revendo os próprios erros. Não se pode, e no fundo nem se quer, mantê-los por perto. É melhor expiar seus pecados em estranhos.

– E os netos?
– Os netos chegam quando os filhos se arrependem e resolvem se estabilizar. É neste momento que a família consegue se reunir com alguma cumplicidade e hiprocrisia.

– Nunca havia pensado dessa forma.
– Questão de tempo, minha cara. As respostas estão todas dentro de nós.

Compromisso

Sábado, 27/Setembro/08 § 4 comentários

Disse que tinha um compromisso inadiável e que tinha que sair imediatamente. 

Enquanto ele olhava para as roupas jogadas pelo chão, pensava se haveria sequer a possibilidade de vê-las penduradas no armário novamente, ou se deveria simplesmente colocá-las de volta naquela velha mala.

Apesar da bagunça toda à sua volta, tudo parecia em ordem comparado ao que sentia. Milhares de expectativas e sonhos imprecisos se misturavam e se dissipavam na fumaça do cigarro.

Ouviu a porta bater e seu coração parar.

ok, ok…

Sábado, 12/Abril/08 § 6 comentários

Tá, comecei. Nunca tive um diário, não colava recordações na agenda. Mas agora eu tenho um blog.

Claro que eu gosto mesmo é de gente, de troca, de aprendizado, de sorrisos. Me apego, sofro, morro de saudades. Quero levar sempre meus amigos de verdade comigo, mas a vida que a gente escolhe viver não nos ajuda muito. No entanto, a gente sabe que não impede, é só dar uma forcinha.

É pra isso que vou escrever aqui assim, sem compromisso, quando der, quando tiver o que dizer. Sem foco, sem linha editorial. A única linha que quero aqui é a que encurta a distância que me separa de compartilhar meu dia-a-dia com você que, de alguma forma, acabou de se encontrar comigo.